Hepatite C

Em 22 de abril de 2004, descobri pela internet o resultado positivo para vírus da hepatite c.

O que é hepatite c?

Perguntei ao pai dos burros virtuais, o Google e descobri um site chamado www.hepato.com. Durante a navegada li algumas coisas interessantes e lá citava um livro de Carlos Varaldo chamado “A Cura da Hepatite C”, que depois vim a comprar.

 De repente, deparei no site com ícone chamado “grupo otimismo”. O que será isto? Entrei e abriu uma página chamada “grupo otimismo de apoio psicológico aos portadores de hepatite c”. Imaginem o que começou a passar na minha cabeça no exato momento que li este ícone.

Vocês não sabem, mas eu sou psicólogo.

Deste momento em diante o bicho começou a pegar, ou melhor, já estava pegando há muito tempo e eu não sabia. E o pior, há muito tempo e como toda doença assintomática não sentia nenhum sintoma.

As piores sensações começaram ferver e a borbulhar na minha cabeça.

Liguei para minha mulher e fomos imediatamente a uma livraria comprar o tal livro. Chegando lá peguei o livro e comecei a folheá-lo. Depois de alguns minutos comecei a ter tremedeira nas pernas precisando sentar, eu não estava acreditando que isso estava acontecendo comigo.

Como eu? Logo eu! Eu sempre fui atleta, não fumo, não bebo em excesso e nunca me droguei. Pensei: não! Isso deve ser um engano, deve ser outro tipo de hepatite.  Em poucas horas eu passei de total ignorante no assunto a um conhecedor razoável do que era hepatite e dos tipos existentes.

Folheando o livro agora sentado, comecei a ficar assustado com a violência do tratamento. 

Minha mulher pediu para eu parar de ler, que estava me fazendo mal.

E eu respondi que de jeito nenhum, afinal era meu corpo e queria saber tudo o que estava acontecendo, principalmente o que vinha pela frente e por trás, afinal a trolha prometia ser grande.

Eu estava tão assustado lendo tudo aquilo, por ter sido pego de surpresa, que, de repente a coisa toda engasgou, senti que ia começar a chorar ali mesmo, imediatamente levantei e pedi a minha mulher para comprar o livro e que eu a esperava no estacionamento. Entrei no carro e chorei seguidamente por cerca de duas horas, afinal eu tinha uma filha de dois anos e eu não queria morrer.

Eu estava exagerando?

NÃO.

Eu fazia parte de um grupo de grande risco, estava com 47 anos, homem, não sabia quantos eram esses seres estranhos e há quanto tempo estavam no meu corpo passeando. Dependendo do tempo, da quantidade e do tipo da genotipagem do bicho, talvez a probabilidade pudesse ser baixa de me salvar, talvez um câncer no fígado, talvez um transplante, talvez, talvez, talvez.

Muitas vezes, esse tal de ‘talvez’, mas também pudesse ser que não fosse dessa vez.

Tudo incerto, como a vida. Tudo certo, como a morte.

Essas eram as monstruosas fantasias de quem só tinha um primeiro teste dado como positivo. Mas esta é a nossa cabeça cheia de fantasias e algumas folheadas de realidade.

A realidade mesmo só chegou após seis meses de exames para confirmação, cinco médicos, uma punção biópsia hepática percutânea por agulha de tru-cut, uma burocracia governamental enorme e o meu tratamento começou.

Antes de o tratamento começar perguntei ao meu médico Dr. Fábio Garcia Brant de Carvalho, se deveria vender a minha moto, pois já sabia que iria ficar muito fraco e a moto era pesada. E, a sua resposta confirmou a minha escolha por ele, como médico. Ele me disse para não fazer isso, pois a moto fazia muito bem à minha cabeça e que nós íamos precisar delas, para a minha cura.

O tratamento foi feito no Hospital Ipiranga, com 1,0mcg/kg/semana em monoterapia Interferon Peguilado associado com quatro comprimidos diários de Ribavirina, sendo dois pela manhã e dois à noite.

O primeiro tratamento durou 25 semanas e por ordem médica e do hospital tive que parar, estava com uma anemia profunda com risco de pegar uma infecção e morrer.

Foram semanas de horror, tendo todos os efeitos colaterais possíveis: mudanças de humor, diarréia, disfunção cognoscitiva, dor abdominal, dor muscular e nas articulações, dor no fígado, enxaqueca, fadiga aguda, falta concentração, indigestão, perda de apetite, síndrome do intestino irritável, enjôo diário, sintomas similares aos de uma gripe de longa duração, amarelão, emagreci 10 kgs., suor noturno, vontade de urinar freqüente e coceira generalizada. Tudo isso sem contar as centenas de picadas que levei entre exames de sangue e as aplicações semanais de Interferon.

 Fiquei sem tratamento por seis meses e recomecei por 48 semanas o segundo tratamento, totalizando 73 semanas intermináveis de briga interna física e psicológica.

Desde a infeliz feliz descoberta desta doença já se passaram seis anos e estou negativado para o vírus de hepatite ‘c’ há três anos.

Quando digo ‘infeliz feliz descoberta’ é porque sem esta infeliz doença não teria feito uma viagem interna importante, não teria feito uma pós-graduação na área de psicossomática e consequentemente uma monografia no qual o tema desenvolvido me fez ver correlações interessantes sobre o meu processo psicológico. O tema da monografia foi: “O Inimigo Verde, Relação Entre as Doenças do Fígado e os Sentimentos de Rancor”.

Quero agradecer a minha família, meus parentes e amigos pelo apoio físico e psicológico; sem eles talvez não tivesse tido força o suficiente para terminar o tratamento.

Assim como a nota da minha monografia, vocês foram 10!

Obrigado por vocês fazerem parte da minha vida!

EUSTÁQUIO ANDREOTTI

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5 Responses to “Hepatite C”

  1. Olá Eustáquio,

    Gostei muito do relato da sua experiência e aceitação da Hepatite C. Eu passei por situação parecia quando descobri ser portadora da Hep. C tb e são relatos como esse que demonstram a falta de informação que o brasileiro tem sobre as hepatites virais e a necessidade da divulgação. Pois sabendo mais, as pessoas podem ser prevenir e aceitar melhor a situação.
    Eu gostaria muito de receber e ler sua monografia citada acima.
    Um grande abraço e muita saude para vc.
    Telma

  2. Bom Dia, Telma!!!
    Obrigado pela sua opinião e depoimento. O ícone ‘viver a vida’ é para que as pessoas possam fazer seus depoimentos de superação, em situações difíceis da vida. Caso vc queira ou mesmo trazer depoimentos de outras pessoas este ícone está aberto …Em breve estarei colocando minha monografia no ar… aguarde..um abraço, Eustáquio.

  3. joice romanini 23. mai, 2010 at 23:01

    Oi,Eustáquio!
    Gostei muito do seu relato,ainda mais vindo de uma pessoa que não é leiga,sou enfermeira e atua nas orientaçoes qto a patologia e tratamento dos pacientes de hepatite C e todos os dias mato muitos leões devido a falta de informações evidas aos pacientes e a população em geral,estou iniciando um grupo de suporte no HUCFF-UFRJ e tb gostaria de poder ler sua monografia e mostrando este relato aos pacientes,é muito importante que saibam que não estão sós,que a existencia dos pares é muito grande!Parabés !!

  4. Oi, Joice!!!
    Fico contente com sua opinião. Onde vc trabalha? Em breve vou colocar minha monografia no blog, tbm penso q será de grande ajuda para q as pessoas possam ter mais informações sobre a psicossomática das doenças do fígado. O ícone “viver a vida” está aberto para que outras pessoas possam contribuir com suas experiências de vida. Obrigado e aguardo contribuições suas e o q vc precisar estou aqui… um abraço, Eustáquio.

  5. Henrique M Saldanha 21. jun, 2011 at 21:08

    Oi Taco,
    Impressionante o seu relato e que bom que você ficou por aqui para ver sua filha crescer e construir a sua família.
    Conhecendo um pouco vc, se soubesse antes desta história apostaria que vc passaria por cima deste vírus de Harley e tudo…
    É isto aí meu caro, continue vivo e ajudando aqueles que estão perdidos por aí precisando se encontrar. Abraços,
    Henrique M Saldanha